A PROPÓSITO DE UM CASO DE DIARREIA PERSISTENTE: CRIPTOSPORIDIOSE EM CRIANÇA DE 3 ANOS

1º Autor: Rodrigo Pita

ULS da Guarda

Coautores: Paulo Ratado; Nelson Ventura; Rita Gralha; Sara Lopes

Introdução: Cryptosporidium spp. é um protozoário intracelular e um importante agente etiológico causador de diarreia no ser humano. A criptosporidiose, infeção causada por este parasita, é transmitida por via fecal-oral, e está associada a factores de risco como o consumo de água não potável, contacto com animais, histórico de viagens e utilização de instalações de recreação aquática. Em hospedeiros imunocompetentes, a infecção está geralmente associada a diarreia autolimitada, enquanto em doentes imunocomprometidos pode ser grave e debilitante, acompanhada de perda de peso e má absorção. Em Portugal, a criptosporidiose tem uma baixa taxa de notificação, com apenas 3 casos confirmados em 2021, uma taxa de 0,003 casos por 100 000 habitantes.

Caso Clínico:

Uma criança de 3 anos, sem queixas anteriores, foi admitida no serviço de urgência pediátrica da nossa instituição a 01-09-2024, com dor abdominal peri-umbilical, vómitos alimentares e diarreia líquida, com uma semana de evolução. Os sintomas tiveram início após o regresso de férias no Algarve, onde frequentou parques aquáticos. Na avaliação inicial, a criança encontrava-se hidratada, com sinais vitais normais e sem sinais de compromisso sistémico grave. Recebeu tratamento sintomático com antiemético oral e teve alta com recomendações gerais e vigilância. Reingressou no serviço de urgência no dia seguinte devido ao agravamento da diarreia (10 dejecções líquidas por dia), algumas destas sanguinolentas. Na avaliação, apresentava-se sem febre, sem vómitos ou sinais de desidratação grave. Realizou-se coprocultura para a pesquisa dos principais agentes bacterianos gastrointestinais: Campylobacter, Salmonella, Shigella, Staphylococcus aureus e Yersinia, através de meios selectivos e diferenciais sem isolamento. Foram pesquisados antigénios de Escherichia coli O157, Helicobacter pylori, Campylobacter, adenovírus e rotavírus por quimioluminescência com resultados negativos. Pesquisaram-se ainda os antigénios de Cryptosporidium parvum e Giardia lamblia, por imunocromatografia, com resultado positivo para o Cryptosporidium parvum. Este resultado foi confirmado pela observação de oocistos, em três amostras previamente concentradas, utilizando o método de Ziehl-Neelsen modificado. A criança foi submetida a uma terapêutica de suporte com reposição electrolítica. Não foram utilizados antidiarreicos.

Discussão e Conclusão: A prevalência de criptosporidiose na Europa, assim como Portugal, revela picos sazonais, entre os meses de junho e setembro. A faixa etária dos 0 a 4 anos, está em maior risco devido à frequente exposição em ambientes de recreação aquática. Além disso, a falta de regulamentação específica para a qualidade desta água, agrava a situação, aumentando o potencial para surtos. Apesar de ser uma doença sujeita a vigilância obrigatória, a criptosporidiose é frequentemente subdiagnosticada e subnotificada na maioria dos países. Esta situação resulta de diversos fatores, como a heterogeneidade dos métodos disponíveis nos vários laboratórios, a falta de uma política de educação nos cuidados primários, e a ausência de notificação. A presença de especialistas em análises clínicas na área da microbiologia, é fundamental para a correta interpretação dos resultados laboratoriais e estabelecimento de protocolos robustos, contribuindo para a rapidez do diagnóstico. Este caso sublinha a importância da implementação de metodologias universais, permitindo a pesquisa dos principais agentes patogénicos.