1º Autor: Nuno Guedes
Unidade Local de Saúde de Santo António
Coautores: Luís Marques Silva,* Cristiana Costa, Ana Paula Castro,* *Unidade Local de Saúde de Santo António.
INTRODUÇÃO: Bifidobacterium spp. são bacilos Gram-positivo anaeróbios não esporulados que fazem parte da flora comensal do trato gastrointestinal, cavidade oral e trato geniturinário e geralmente não são consideradas patogénicas. Desde o primeiro caso descrito em 1964 de uma bifidobactéria (Bifidobacterium dentium) isolada de um abcesso pulmonar, algumas espécies têm sido ocasionalmente associadas a infeções com isolamentos em amostras de sangue, líquido peritoneal, abcessos e urina. Apesar disso, o seu papel etiológico nas infeções e o mecanismo de patogenicidade ainda não está totalmente estabelecido.
CASO CLÍNICO
Uma criança de 8 anos, sexo masculino, com antecedentes de prematuridade, paralisia cerebral, extrofia vesical, infeção do trato urinário (ITU) recorrente e história de enterocistoplastia com cólon sigmoide 1 ano antes foi admitida no serviço de urgência duas vezes num intervalo de 7 semanas com clínica compatível com ITU. Apresentava dor nos flancos com irradiação anterior, sem febre. A ecografia reno-vesical revelou uretero-hidronefrose bilateral. Em ambos os episódios foram colhidas amostras de urina que revelaram piúria (>50 leucócitos por campo de grande ampliação 400x (CGA) e hematúria ligeira (2-5 eritrócitos/CGA). As uroculturas recuperaram Bifidobacterium spp. com um crescimento exclusivo de >10^5 UFC/mL em gelose de chocolate após 48h de incubação aeróbica a 35±2ºC. O isolado foi identificado pelo método MALDI-TOF e a suscetibilidade antimicrobiana determinada pelo método de difusão com tira de gradiente de concentração. As categorias de interpretação de suscetibilidade foram determinadas de acordo com os critérios da EUCAST tendo apresentado sensibilidade a Penicilina G, Amoxicilina/CA, Clindamicina e Vancomicina e resistência a Metronidazol. No primeiro episódio o tratamento empírico instituído foi TMP-SXT 8mg/kg durante 10 dias e no segundo episódio foi Cefuroxima 30mg/kg/dia (para os quais não existem orientações de interpretação de suscetibilidade da EUCAST) tendo a criança apresentado melhoria clínica temporária, mas persistência microbiológica do isolado.
DISCUSSÃO: O papel de Bifidobacterium spp. como agente etiológico de ITU está escassamente descrito na literatura. Tal como o presente caso, relatos anteriores sugerem que ITUs por bactérias anaeróbias, incluindo Bifidobacterium spp., são mais comuns em pacientes com história de ITU recorrente e sinais de uropatia obstrutiva. Uma vez que as duas uroculturas consecutivas revelaram uma flora abundante >10^5 UFC/ml e exclusiva de Bifidobacterium spp. acompanhadas de clínica de ITU e exame sumário de urina positivo, a possibilidade de contaminação foi descartada.
CONCLUSÃO: Apesar do significado clínico de alguns isolamentos reportados não ser evidente, nos casos de infeções com flora exclusiva, este género de bactérias deve ser considerado como um possível agente uropatogénico particularmente em pacientes com alterações anatómicas e funcionais do trato urinário. No entanto a identificação a nível da espécie é crucial para identificar peculiaridades clínicas de infeções por diferentes Bifidobacterium spp. e, portanto, clarificar a sua relevância patológica.