1º Autor: Catarina Alves de Oliveira
ULS Póvoa de Varzim/ Vila do Conde
Coautores: Nádia Martins; Filipa Bazenga – ULS Póvoa de Varzim/Vila do Conde
Introdução: A sépsis neonatal precoce é uma das principais causas de morbimortalidade em recém-nascidos, sendo o Streptococcus do Grupo B (SGB) o principal agente infecioso, via transmissão vertical durante o parto. A parotidite bacteriana aguda (PBA) constitui uma forma rara de infeção neonatal tardia/recorrente por SGB, e ocorre mais frequentemente em recém-nascidos do género masculino e prematuros.
Caso Clínico
Recém-nascido de termo, do género feminino, admitido na Unidade de Neonatologia com 1 dia de vida por síndrome de dificuldade respiratória (SDR) e recusa alimentar. Dos antecedentes obstétricos, destaca-se rastreio de SGB realizado às 37 semanas negativo. O estudo analítico revelou leucocitose com neutrofilia, e aumento dos parâmetros inflamatórios. A hemocultura confirmou infeção por SGB multissensível. Apresentou boa evolução clínica e analítica, tendo tido alta hospitalar após cumprir 10 dias de antibioterapia. Aos 21 dias de vida, recorre ao serviço de urgência por irritabilidade, febre e edema da região parotídea esquerda. Analiticamente, apresentava proteína C reativa de 1.98 mg/dL, sem leucocitose. Foi readmitido no Serviço de Neonatologia com quadro de parotidite bacteriana, tendo iniciado antibioterapia com flucloxacilina e cefotaxima. O estudo analítico subsequente demonstrou elevação dos parâmetros inflamatórios e na hemocultura isolou-se o SGB. Uma vez que a mãe apresentava quadro de mastite, realizou-se o exame bacteriológico do leite, tendo sido isolado o SGB, com o mesmo perfil de suscetibilidade. Procedeu-se ao ajuste terapêutico, cumprindo 10 dias de ampicilina e cefotaxima, e à suspensão do aleitamento materno, com evolução favorável do quadro clínico.
Discussão: O SGB é o principal agente etiológico da doença invasiva neonatal, decorrente da transmissão vertical no parto. Contudo, a recorrência da infeção por este microrganismo, sob a forma de parotidite bacteriana aguda (PBA), no período neonatal tardio (entre o 7º e o 90º dia de vida), é rara. O diagnóstico de PBA é essencialmente clínico, e caracteriza-se por edema e sinais inflamatórios na região parotídea, podendo associar-se a sinais e sintomas sistémicos, tais como febre, recusa alimentar e SDR. De acordo com a literatura, a infeção adquire-se por via ascendente através do ducto parotídeo, ou por disseminação hematogénica, associada ou precedida de sépsis. Embora pouco frequente, está também documentado o potencial de transmissão do SGB pós-natal via aleitamento materno, responsável pela recorrência da infeção, sobretudo em contexto de mastite materna concomitante. No caso apresentado, foi iniciado tratamento empírico para o Staphylococcus aureus, o agente mais frequentemente implicado na PBA. Após isolamento do SGB, efetuou-se a revisão terapêutica.
Conclusão: A PBA associada a sépsis é uma entidade rara no período neonatal tardio. O SGB deve ser incluído no diagnóstico etiológico diferencial, principalmente em recém-nascidos com infeção precoce por este agente. No presente caso, a hemocultura e o exame bacteriológico do leite materno assumiram um papel preponderante no diagnóstico, com reconhecimento precoce do foco infecioso, o que possibilitou a instituição do tratamento dirigido, com resolução completa do quadro clínico.