BACTERIEMIA POR CUPRIAVIDUS PAUCULUS NUM DOENTE ONCOLÓGICO COM CATETER IMPLANTADO: CASO CLÍNICO

1º Autor: Tânia Branquinho

IPO – Coimbra

Coautores: Micaela Batista; Rui Soares; Nuno Gonzaga; Ana Paiva – IPO Coimbra

Resumo

Introdução: O Cupriavidus pauculus é um bacilo Gram-negativo, não fermentador, aeróbio estrito e de origem ambiental, frequentemente isolado de fontes aquáticas como água potável, sistemas hospitalares e dispositivos médicos. Trata-se de um microorganismo raro como agente de infeção em humanos, mas com potencial patogénico documentado, sobretudo em doentes imunodeprimidos ou com dispositivos invasivos. Estão descritos casos de bacteriemia, pneumonia, meningite e infeções associadas a cateteres, em contextos hospitalares. Apesar de raro, a crescente identificação deste agente em hemoculturas tem levantado questões sobre a verdadeira relevância clínica. A interpretação da suscetibilidade antimicrobiana é dificultada pela ausência de pontos de corte específicos definidos pela EUCAST, sendo habitualmente utilizados os valores estabelecidos para Pseudomonas spp. A evidência disponível aponta para melhor atividade da minociclina, cefepima e cefotaxima, com suscetibilidade variável ao imipenem, fluoroquinolonas e co‑trimoxazol, e resistência frequente aos aminoglicosídeos e colistina.

Caso clínico

Apresenta-se o caso de uma doente de 75 anos, com diagnóstico de carcinoma do reto localmente avançado (cT4bN2) em 2022, tratada com quimiorradioterapia neoadjuvante com capecitabina e resseção do reto em 2023. Em 2024 teve recidiva pulmonar e ganglionar, pelo que reiniciou quimioterapia (de 1.ª linha com FOLFIRI + Bevacizumab), tendo sido previamente colocado um CTI. Durante uma sessão de tratamento no Hospital de Dia, a paciente apresentou um episódio de shivering, encontrando-se subfebril (T 37,6 °C), hemodinamicamente estável e assintomática. Analiticamente, destacava-se: leucocitose, aumento de PCR (9.24mg/dL) e PCT (0.56 ng/dL), além de uma discreta elevação da enzimologia hepática. Foram também colhidas hemoculturas (CTI e periférica), com isolamento de C. pauculus. Uma vez que a doente se encontrava assintomática e hemodinamicamente estável, optou-se por repetir as hemoculturas após 4 dias, tendo-se isolado novamente o mesmo agente. Dada a persistência do isolamento e a ausência de foco alternativo, assumiu-se infeção de CTI e bacteriemia por C. pauculus e iniciou tratamento com ciprofloxacina em dose aumentada (750mg 2x/dia), procedendo-se posteriormente à remoção do CTI. A cultura da ponta do cateter isolou o mesmo agente. A doente teve evolução clínica favorável, sem novos episódios febris e com normalização dos parâmetros inflamatórios após sete dias de antibioterapia.

Discussão e Conclusão: Este caso reforça a importância de reconhecer Cupriavidus pauculus como causa rara, mas relevante, de bacteriemia relacionada com dispositivos invasivos em doentes imunocomprometidos.
Apesar da sintomatologia inicial discreta, a realização de hemoculturas e a monitorização laboratorial permitiram um diagnóstico precoce. Após a remoção do cateter e a antibioterapia com ciprofloxacina houve resolução clínica e normalização dos marcadores inflamatórios.
A repetição das hemoculturas, a identificação microbiológica precisa e a correlação clínica são essenciais para distinguir infeção verdadeira de contaminação.
A avaliação da suscetibilidade aos antimicrobianos é complicada pela inexistência de pontos de corte próprios definidos pela EUCAST, sendo normalmente adotados os critérios para Pseudomonas spp.
Pela sua raridade e perfil de suscetibilidade imprevisível, a comunicação de novos casos é essencial para melhorar o conhecimento clínico e terapêutico deste agente.