CASO CLÍNICO: TUBERCULOSE POR CONTACTO EM CRIANÇA

1º Autor: Joana Moura da Silva

ULS Gaia / Espinho

Coautores: Maria Isabel Valente; Isabel Pinto; Agostinho Lira, ULSGE

Introdução: A tuberculose é uma doença infeciosa causada por Mycobacterium tuberculosis (M. tuberculosis). É transmitida entre pessoas, maioritariamente por via inalatória, através de gotículas expelidas pela tosse, fala ou espirro. Em cerca de 30 a 40% das crianças diagnosticadas com tuberculose, a transmissão é feita por contacto direto com familiares e cuidadores próximos.

Caso Clínico:

Criança de dois anos com exposição a familiar próximo com tuberculose pulmonar, multisensível e com tratamento iniciado em Janeiro de 2024.
Em Fevereiro de 2024, a criança apresentava alterações clínicas e radiológicas. Os resultados laboratoriais mostraram teste de IGRA positivo e amostras de lavado brônquico, lavado broncoalveolar e aspirados gástricos com exame direto negativo, culturas negativas e testes de ácidos nucleicos (TAAN) M. tuberculosis complex negativos. No exame bacteriológico dos lavados foi isolada Pseudomonas aeruginosa.
Iniciou tratamento para M. tuberculosis com Isoniazida (H), Rifampicina (R) e Pirazinamida (Z). E tratamento para Pseudomonas aeruginosa com levofloxacina.
Em Julho de 2024, repete broncofibroscopia para novas pesquisas. Os resultados culturais da pesquisa de micobactérias foram positivos e identificou-se Mycobacterium septicum nos lavados. O TAAN de M. tuberculosis complex foi positivo no lavado broncoalveolar.
No exame bacteriológico dos lavados foi novamente isolada Pseudomonas aeruginosa, tratada com amicacina e ceftazidima.
Suspendeu tratamento para a tuberculose ao fim de um ano.

Discussão: A tuberculose por contacto pode resultar em tuberculose latente ou ativa.
O rastreio inicia-se com o despiste de doença ativa através do inquérito de sintomas, radiografia torácica e teste de IGRA.
Nos casos de infeção em crianças com idade inferior a 5 anos, cerca de 40% pode evoluir para doença grave e formas extrapulmonares nos dois primeiros anos devido à imaturidade do sistema imunitário.
Neste caso clínico, após 3 idas ao serviço de urgência, devido a febre persistente, tosse seca com 1 mês de evolução e perda de apetite e, sabendo do contacto recente com familiar com tuberculose ativa, foi decidido o internamento. Foram realizados vários estudos: radiografia torácica, broncofibroscopia e estudos analíticos.
As alterações radiológicas observadas e o teste de IGRA positivo indicaram um possível diagnóstico de tuberculose, e consequentemente o início de tratamento com tuberculostáticos.
Após 6 meses de tratamento, a criança mantinha alterações radiológicas. Foram realizadas novas colheitas de lavados cujo resultado de TAAN M. tuberculosis complex foi positivo validando o diagnóstico inicial de tuberculose. Já os exames culturais de micobactérias foram negativos para M. tuberculosis mas desenvolveram-se bacilos álcool ácido resistentes cuja identificação foi Mycobacterium septicum (colonização/contaminação/infeção?).

Conclusão: O diagnóstico laboratorial de tuberculose nas crianças é um desafio por várias razões, nomeadamente, pela dificuldade na obtenção de amostras representativas não invasivas e pela característica paucibacilar típica da faixa etária.
Os tratamentos com antibióticos prévios às colheitas de amostras, o processo de tratamento a que as amostras são sujeitas para a pesquisa cultural de micobactérias, o desenvolvimento de contaminantes/colonizantes tanto de micobactérias não tuberculosas como de outros microrganismos, dificultam o desenvolvimento M. tuberculosis em cultura.