1º Autor: Joana Vaz
Serviço de Patologia Clínica, ULS Póvoa de Varzim / Vila do Conde
Coautores: Carla Leite, Alberta Cruz Serviço de Patologia Clínica, ULS Póvoa de Varzim / Vila do Conde
Resumo
Introdução: Neisseria meningitidis é um diplococo Gram-negativo responsável por doença meningocócica invasiva (DMI), que pode apresentar manifestações graves como meningite ou sépsis, com elevada mortalidade sobretudo em crianças. A sua evolução rápida justifica o início urgente de antibioterapia empírica, frequentemente antes da confirmação laboratorial. A artrite é uma complicação rara da DMI, geralmente de aparecimento tardio, podendo ter origem séptica ou inflamatória.
Caso clínico
Criança admitida com febre, prostração e diarreia, com suspeita de sépsis/meningite. Foi tentada punção lombar, sem sucesso, e colhida hemocultura antes da antibioterapia, que permitiu o isolamento de N. meningitidis. Iniciou-se ceftriaxone endovenoso empírico, com posterior confirmação de sensibilidade por Etest a cefotaxime, ceftriaxone, cloranfenicol, ciprofloxacina e penicilina-G, segundo as normas EUCAST (European Committee on Antimicrobial Susceptibility Testing).
Posteriormente, realizou-se punção lombar já sob antibioterapia, revelando LCR (líquido cefalorraquidiano) com pleocitose neutrofílica (6087 leucócitos/mm³), proteínas elevadas (89 mg/dL), exame cultural negativo após 72 horas de incubação e PCR (polymerase chain reaction) positiva para N. meningitidis serogrupo B.
Na evolução tardia, surgiu dor na articulação do joelho esquerdo, com ecografia a evidenciar derrame e sinovite. O líquido sinovial, de cor vermelho-acastanhado, aspeto turvo e viscosidade reduzida, apresentou leucocitose intensa (83.280 leucócitos/mm³, 90% polimorfonucleares), mas o exame cultural e PCR (16S, N. meningitidis, Staphylococcus aureus e Kingella kingae) foram negativos. O diagnóstico diferencial manteve-se entre artrite séptica estéril e artrite reativa pós-infeciosa.
Discussão: O caso evidencia a importância da colheita precoce de hemocultura antes do início da antibioterapia, que foi determinante para o isolamento de N. meningitidis. Após o início do tratamento, a viabilidade bacteriana fica comprometida, reduzindo a sensibilidade da cultura. Nestas circunstâncias, a PCR demonstrou-se essencial para confirmar a etiologia meningocócica no LCR, reforçando o seu papel como ferramenta complementar indispensável no diagnóstico de infeções invasivas. A complicação articular representou um desafio diagnóstico: a citologia compatível com artrite séptica contrastou com culturas e PCR negativas. Este achado, aliado ao contexto clínico, ilustra a dificuldade em diferenciar entre artrite séptica estéril e resposta inflamatória pós-infeciosa.
Conclusão: O diagnóstico microbiológico deve ser entendido como um processo dinâmico, faseado e condicionado pelo momento clínico e pela antibioterapia prévia. A colheita antes do início da terapêutica é determinante para o isolamento bacteriano, enquanto a PCR é crucial quando as culturas se tornam negativas através da deteção de DNA (deoxyribonucleic acid) residual. Em complicações tardias, como a artrite, a ausência de positividade microbiológica não exclui infeção prévia. A interpretação integrada de dados clínicos, laboratoriais e imagiológicos é essencial para um diagnóstico e tratamento eficazes.