HÁ LUGAR PARA O ANTI-HCV QUANTITATIVO NA ERA MOLECULAR?

1º Autor: Ana Cardeal Dourado

Unidade Local de Saúde do Nordeste

Coautores: João A. Pinto; Graça Pombo; Maria José Montanha – Serviço de Patologia Clínica, ULS do Nordeste

Resumo

Introdução: A infeção pelo vírus da hepatite C (HCV) constitui um importante problema de saúde pública, sendo o objetivo da World Health Organization (WHO) erradicá-lo até 2030, através do rastreio precoce e abrangente, bem como do tratamento apropriado.
O protocolo de rastreio recomendado pelo Centers for Disease Control and Prevention (CDC), estabelece, como abordagem inicial, o doseamento dos anticorpos anti-HCV, devendo os casos considerados positivos ser confirmados por teste molecular reflexo (RNA-HCV).
O valor clínico da quantificação de anticorpos anti-HCV na previsão da positividade do RNA-HCV permanece não estabelecido, embora a sua utilidade tenha vindo a ser explorada. A literatura, atualmente conhecida, refere existir uma possível associação entre títulos serológicos elevados e doença ativa. Uma vez provada, esta associação tenderá a constituir uma importante ferramenta no rastreio e tratamento precoces.

Material e Métodos: Os investigadores, servindo-se do protocolo de rastreio recomendado pelo CDC, aplicado num hospital periférico, elaboraram um estudo onde incluíram os resultados recolhidos entre janeiro de 2023 e julho de 2025. Foram excluídos aqueles com serologia anti-HCV negativa, bem como com diagnóstico prévio de infeção por HCV. Comparou-se a distribuição do resultado quantitativo da serologia anti-HCV (método: imunoensaio de quimioluminescência) com o resultado qualitativo do RNA-HCV (método: reverse transcription polymerase chain reaction). A análise estatística foi realizada recorrendo ao Statistical Package for the Social Sciences (SPSS).

Resultados: Numa população de 123 doentes com o doseamento dos anticorpos anti-HCV positivo, verificou-se que 62 (50,4%) tinham infeção por HCV ativa (i. e. RNA-HCV positivo). A média do teste serológico anti-HCV foi estatisticamente superior nos doentes com RNA-HCV positivo (20,84 vs. 10,89; p <0,01) (Imagem 1). Da análise da curva Receiver Operating Characteristic (ROC) (Imagem 2), resulta uma área abaixo da curva de 0,847 e define-se como ponto de Yonden o cutoff serológico anti-HCV 15,72 Signal-to-Cutoff ratio (S/CO). Este cutoff associa-se a sensibilidade (S) de 95,2%, especificidade (E) de 65,6%, valor preditivo positivo (VPP) de 26,3% e valor preditivo negativo (VPN) de 93,0%.

Discussão e Conclusão: Apesar da diferença estatisticamente significativa entre as médias dos dois grupos em análise, não é possível definir um cutoff que permita predizer com segurança o estado de infeção por HCV ativa. Tal é evidenciado pelo baixo VPP e reflete-se graficamente pela sobreposição considerável dos dados no gráfico boxplot (Imagem 1). Por outro lado, o cutoff serológico anti-VHC 15,72 S/CO associou-se a 93,0% de VPN.
Assim, verificou-se que os resultados da performance analítica foram semelhantes aos fornecidos pela literatura. Estes reforçam a importância da aplicação do protocolo de rastreio do HCV, recomendado pelo CDC, e confirmam o papel limitado da quantificação serológica anti-HCV.