1º Autor: Lucilia Ribeiro
Trofa Saúde, Patologia Clínica; Serviço de Patologia Clínica, ULS Médio Ave
Coautores: Ana Raquel Diniz 1,2; Marlene Silva 1,2; Vânia Rosa 1,2; Luís Marques da Silva 1,3; João Oliveira Neves 1,4; Hugo Cruz 1,3;
1 – Trofa Saúde Patologia Clínica; 2 – Serviço de Patologia Clínica, Unidade Local de Saúde do Médio Ave, E.P.E.; 3 – Serviço de Microbiologia, Unidade Local de Saúde de Santo António, E.P.E.; 4 – Serviço de Patologia Clínica, Unidade Local de Saúde de Braga, E.P.E.
Resumo
Introdução: As infeções bacterianas do trato gastrointestinal representam uma causa relevante de morbilidade a nível mundial. Apesar da crescente utilização de métodos moleculares, a coprocultura permanece uma ferramenta diagnóstica essencial, pois permite confirmar a viabilidade bacteriana e, subsequentemente, efetuar o estudo de suscetibilidade antimicrobiana e a investigação epidemiológica aplicável. Este trabalho teve como objetivo identificar as bactérias enteropatogénicas isoladas em coproculturas, num laboratório central, ao longo de um período de 4 anos.
Material e Métodos: Estudo observacional, retrospetivo e unicêntrico, incluindo todas as amostras de fezes submetidas a coprocultura entre janeiro de 2021 e dezembro de 2024. Foram excluídas amostras do mesmo indivíduo num intervalo inferior ou igual a 8 semanas, de forma a contemplar o período máximo de excreção fecal das principais bactérias enteropatogénicas. As amostras de fezes foram inoculadas em caldo selenito com subcultura para meio SS (a 35º C, em aerobiose, com leitura às 18–24h) e em meio seletivo para Campylobacter (a 42º C, em microaerofilia, com leitura às 48–96h). A identificação bacteriana foi realizada por método bioquímico ou proteómico (MALDI-TOF MS).
Resultados: No total foram analisadas 3186 coproculturas, 90,3% (n=2877) com resultado negativo, 6,4% (n=204) positivo e 3,3% (n=105) controverso. Entre as coproculturas negativas, 93,7% (n=2696) revelaram crescimento de flora comensal intestinal, enquanto 6,3% (n=181) ausência de crescimento nos meios de cultura utilizados, sugerindo profunda alteração da flora comensal intestinal. Entre as coproculturas positivas, 69,5% (n=142) apresentaram crescimento de Campylobacter spp., 27,5% (n=56) de Salmonella spp., 1,0% (n=2) de Yersinia spp.,1,0% (n=2) de Aeromonas spp., 0,5% (n=1) de Shigella spp. e 0,5% (n=1) de Vibrio spp. Tanto a campilobacteriose como a salmonelose foram mais frequentes em idade pediátrica (<18 anos), representando 77,5% (n=110) e 57,1% (n=32) dos casos, respetivamente. Todas as coproculturas com resultado de significado controverso corresponderam a isolados de Hafnia spp.
Discussão e Conclusão: A taxa de positividade global foi baixa, o que reforça não só a importância da triagem criteriosa das amostras, mas também o potencial papel de outros microrganismos, tais como vírus, nas infeções do trato gastrointestinal. A preponderância de Campylobacter spp. e Salmonella spp. como principais bactérias enteropatogénicas, sobretudo em idade pediátrica, está em consonância com a epidemiologia publicada na literatura internacional. A identificação de bactérias menos frequentes como Yersinia spp., Aeromonas spp., Shigella spp. e Vibrio spp., embora rara, tem relevância clínica e epidemiológica. Por outro lado, a valorização clínica de Hafnia spp. deve ser cautelosa e contextualizada. Embora certas estirpes tenham semelhanças com Escherichia coli enteropatogénica (EPEC) e possam estar associadas a infeções do trato gastrointestinal, principalmente em doentes com comorbilidades subjacentes, a maioria dos isolados clínicos não possui fatores de virulência conhecidos. Em conclusão, este estudo fornece uma visão abrangente sobre a identificação de bactérias enteropatogénicas em coproculturas e destaca a necessidade de uma interpretação clínica rigorosa, particularmente perante resultados de significado controverso.