1º Autor: Daniel Gonçalves
IPO-Coimbra / Unidade Local de Saúde de Braga
Coautores: Glória Gonçalves – Unidade Local de Saúde de Braga; Carmen Fernandez – Unidade Local de Saúde de Braga; Maria Alexandre Mendes, IPO-Coimbra; Aurélio Mesquita – Unidade Local de Saúde de Braga
Resumo
Introdução: O género Mixta foi formalmente definido em 2018, após reclassificação de várias espécies do género Pantoea, com Mixta calida a ser a espécie representativa do novo género. Pertence às Enterobacteriales, da família Erwiniaceae, sendo um bacilo de Gram negativo móvel. Esta bactéria é raramente associada a infeções humanas. Algumas publicações documentam casos isolados de bacteriémia com meningite em recém-nascidos e infeções de tecidos moles e ossos em adultos imunocomprometidos. Até à presente data, não existem publicações de infeção do tracto urinário (ITU) com agente M. calida.
Caso clínico
Homem de 73 anos, referenciado por retenção urinária, apresentava dor no hipogastro e dor lombar, com hematúria. Encontrava-se apirético, sem tonturas ou cefaleias, sem náuseas ou vómitos e com Murphy vesicular e renal negativos, assim como Blumberg negativo. Historial de dislipidemia, diabetes mellitus tipo 2 insulino dependente, hipertrofia benigna da próstata e AVC hemorrágico em 2012. Medicação habitual: tansulosina e Serenoa repens. Na primeira observação a 21/7, procedeu-se a algaliação do doente, com resolução de sintomas. A 29/7, o doente é observado novamente com episódio de retenção urinária, apresentando leucocitose em hemograma (com 91.8% de neutrófilos), sinais de insuficiência renal aguda (creatinina e ureia elevadas), PCR aumentada e ainda apresentava leucócitos, eritrócitos e nitritos positivos em urina tipo II. Em urocultura, observou-se um crescimento de ≥10*5 UFC/mL de M. calida, identificada por MALDI-TOF. No antibiograma realizado, a estirpe demonstrou ser selvagem, com sensibilidade demonstrada a todas as classes e antibióticos testados. Clinicamente, foi realizada nova algaliação e prescrita cefixima 400mg, com resolução das queixas. Posteriormente, a 27/8, o doente é observado com nova retenção urinária, mas, em urocultura, apenas é identificada a estirpe Candida krusei, com um crescimento de 10*4 UFC/mL. O doente é referenciado para urologia visto ter sofrido 3 episódios de retenção urinária no espaço de apenas 1 mês.
Discussão/ Conclusão: Este é, até onde se conhece, o primeiro relato de ITU por M. calida. Casos anteriores envolvem bacteriémia, meningite neonatal e osteomielite com necrose cutânea em adulto. Este caso sugere o papel de M. calida como agente causador de ITU, reforçando a importância de identificação laboratorial adequada, utilizando bases de dados atualizadas para novos géneros. Reforça, ainda, a necessidade de considerar M. calida como microrganismo oportunista e emergente, especialmente em doentes com fatores predisponentes, tais como a retenção urinária, diabetes e hipertrofia prostática.