INFEÇÕES INVASIVAS POR PASTEURELLA MULTOCIDA EM DOENTES ONCOLÓGICOS: RELATO DE DOIS CASOS CLÍNICOS

1º Autor: André Balsa

Serviço de Patologia Clínica, Unidade Local de Saúde de Matosinhos

Coautores: António Albuquerque – Serviço de Patologia Clínica, Unidade Local de Saúde de Matosinhos

Resumo

Introdução: Pasteurella multocida é um cocobacilo Gram-negativo, comensal da orofaringe e trato gastrointestinal de diversos animais domésticos, especialmente cães e gatos. Em humanos, as infeções geralmente ocorrem após mordeduras ou arranhões, manifestando-se principalmente como celulite localizada. No entanto, podem ocorrer formas mais invasivas – como bacteriemia e pneumonia – sobretudo em doentes com comorbilidades associadas ou em estados de imunossupressão. Neste trabalho descrevem-se dois casos clínicos de bacteriemia por Pasteurella multocida.

Casos Clínicos

O primeiro caso refere-se a uma mulher de 50 anos, com historial de carcinoma mamário metastizado, em quimioterapia paliativa, que recorre ao serviço de urgência por quadro de febre, celulite do membro superior esquerdo com extensão à parede torácica e linfedema. Na hemoculturas foi isolada uma estirpe de Pasteurella multocida sensível aos beta-lactâmicos e à doxiciclina e com resistência a ciprofloxacina e cotrimoxazol. Após uma dose única de piperacilina/tazobactam, o tratamento foi alterado para amoxicilina/ácido clavulânico, com evolução clínica favorável.
O segundo caso corresponde a um homem de 59 anos, com carcinoma esofágico submetido a gastrostomia endoscópica percutânea e em quimioterapia que se apresentou com febre, tosse produtiva, dispneia e dor de características pleuríticas. Os exames laboratoriais e imagiológicos (TAC torácica) foram compatíveis com pneumonia bacteriana. Nas hemoculturas isolou-se uma estirpe de Pasteurella multocida multissensível, tendo sido tratado com amoxicilina/ácido clavulânico, com resposta clínica satisfatória.

Discussão: Os casos descritos ilustram formas sistémicas de infeção por Pasteurella multocida em doentes imunodeprimidos, sem evidência de lesão cutânea. A literatura evidência que, ao contrário das infeções associadas a trauma – geralmente limitadas aos tecidos moles e com bom prognóstico –, as infeções não traumáticas ocorrem predominantemente em indivíduos com imunossupressão ou comorbilidades graves, estando associadas a maior incidência de bacteriemia, necessidade de cuidados intensivos e elevadas taxas de mortalidade. A exposição indireta a animais de estimação, mesmo na ausência de lesões traumáticas, é considerada fator de risco nesses contextos.

Conclusão: Embora raras, as infeções invasivas por Pasteurella multocida devem ser consideradas em doentes imunodeprimidos, mesmo na ausência de mordedura animal.
Estes dois casos reforçam que, em doentes oncológicos sob quimioterapia, o espectro clínico da infeção por Pasteurella multocida pode ser mais amplo e progredir com evolução desfavorável, sendo o reconhecimento precoce do agente e a instituição de antibioterapia adequada cruciais para melhorar o prognóstico.