Microbiologia Clínica
KLEBSIELLA PNEUMONIAE PRODUTORA DE DE IMP-22: UM DESAFIO DIAGNÓSTICO
1º Autor: Mariana Nobre Romanholo
Unidade Local de Saúde Matosinhos
Coautores: Rita Martins, Angela Novais, Antónia Read – ULS Matosinhos
Resumo
A resistência antimicrobiana é uma das maiores ameaças à saúde pública global. As infeções causadas por Enterobacterales resistentes aos carbapenemos (ERC), para além de se associarem a taxas de mortalidade duas a três vezes superiores às das estirpes sensíveis, representam um impacto económico significativo para os sistemas de saúde. Adicionalmente, as ERC são resistentes à maioria dos antibióticos disponíveis, restringindo fortemente as opções terapêuticas. A Klebsiella pneumoniae resistente aos carbapenemos (CR-KP) tem vindo a aumentar de forma acentuada nos hospitais portugueses, sendo Portugal um dos países com maior taxa de incidência na Europa. Estas estirpes produzem predominantemente carbapenemases do tipo KPC, embora também se detetem ocasionalmente variantes OXA-48, sendo as enzimas NDM, VIM e IMP identificadas apenas ocasionalmente. À escala global, a prevalência de Enterobacterales produtoras de IMP é superior na Ásia e na Oceânia. Na Europa, o número limitado de casos notificados poderá refletir não só uma prevalência inferior, mas também uma subdeteção, decorrente de heterogeneidades nas capacidades de diagnóstico e nos sistemas de vigilância epidemiológica.Neste estudo, descrevemos a deteção de duas estirpes de Klebsiella pneumoniae portadoras do gene blaIMP em dois doentes em 2024 e 2025. As estirpes foram inicialmente isoladas em meios de cultura apropriados e posteriormente identificadas por espectrometria de massa MALDI-TOF MS (VITEK MS ® bioMérieux). A avaliação da suscetibilidade antimicrobiana foi efetuada utilizando o sistema automatizado VITEK 2® AST-N355 (bioMérieux). A leitura e interpretação dos resultados seguiram os critérios do European Committee on Antimicrobial Susceptibility Testing (EUCAST). Os testes moleculares de rotina apresentaram resultados discordantes. Nos dois casos foram realizados testes imunocromatográficos (K.N.I.V.O. RERSIST-5, Coris BioConcept) para pesquisa de Enterobacterales produtoras de carbapenemases (EPC), com resultados positivos para IMP. Os testes de PCR em tempo real (CPO BD MAX™ Becton Dickinson) foram negativos para blaIMP ou qualquer dos restantes genes pesquisados (blaKPC, blaNDM, blaVIM, blaOXA-48-like). No caso 1, o mesmo resultado foi obtido utilizando o teste de PCR Xpert Carba-R (Cepheid). Posteriormente, a presença de carbapenemases foi confirmada pelo teste fenotípico Blue-Carba e por PCR e sequenciação do gene blaIMP que identificou o gene blaIMP-22 nas duas estirpes.Estes dois casos destacam as limitações dos métodos de diagnóstico de rotina na deteção de mecanismos de resistência menos prevalentes, como é o caso das carbapenemases do tipo IMP-22. Tais limitações comprometem a precisão do diagnóstico microbiológico e, consequentemente, a seleção adequada da terapêutica antimicrobiana, com impacto potencial na gestão clínica dos doentes e no controlo da disseminação destas estirpes em ambiente hospitalar.