1º Autor: Micaela Batista
Serviço de Patologia Clínica, IPO – Coimbra
Coautores: Nuno Gonzaga (1), Rui Soares (1), Miguel Gouveia (2), Bárbara Fernandes (2); 1- Serviço de Patologia Clínica do IPO de Coimbra, 2- Serviço de Dermatologia do IPO de Coimbra
Resumo
Introdução: A tinea capitis é uma infeção dermatofítica do couro cabeludo predominantemente observada em idade pediátrica, ocorrendo apenas de forma esporádica em adultos e excecionalmente em idosos. O seu diagnóstico nesta faixa etária representa um desafio clínico, uma vez que as manifestações clínicas são frequentemente atípicas e podem simular outras dermatoses inflamatórias (dermatite seborreica, psoríase ou pustulose erosiva do couro cabeludo), bem como queratoses actínicas ou lesões neoplásicas. A combinação da imunossenescência, alterações da barreira cutânea e fatores ambientais/medicamentosos têm contribuído para o surgimento de casos de dermatofitoses em faixas etárias mais avançadas.
Caso clínico:
Doente do sexo feminino, 97 anos, com antecedentes de hipertensão arterial, fibrilhação auricular, valvulopatia aórtica e hipotiroidismo, foi referenciada para consulta de Dermatologia num hospital oncológico por lesões crónicas no couro cabeludo. Ao exame objetivo, apresentava uma placa eritemato-queratósica, friável, medindo 30×25 mm, localizada no vértex do couro cabeludo. Perante a suspeita de carcinoma espinocelular versus queratose actínica hipertrófica, realizou-se biópsia incisional, cujo exame histopatológico revelou queratose actínica inflamada com extensa fibrose. Fez tratamento tópico com imiquimod, 3 vezes por semana, durante 4 semanas, no entanto, na consulta de revisão a doente apresentava um eritema crostoso com ligeiro edema. Esta reação inflamatória associada ao imunomodelador, dificultou a avaliação da resposta terapêutica, tendo sido prescrito betametasona com ácido fusídico creme. Dois meses após a última consulta, repetiu-se a biópsia incisional devido à hipótese clínica de pustulose erosiva do couro cabeludo. Foram observadas alterações histológicas inespecíficas, mas consistentes com o diagnóstico, pelo que se instituiu tratamento tópico com clobetasol espuma. Dada a ausência de melhoria clínica, colocou-se a hipótese de dermatofitose do couro cabeludo. Procedeu-se à colheita de escamas e cabelos para exame micológico, que revelou positividade no exame direto e na cultura, com identificação de Trichophyton rubrum. A doente iniciou tratamento com terbinafina, tópica e oral (250 mg/dia), e, após três meses de tratamento, apresentava uma excelente evolução clínica, com resolução completa das lesões.
Discussão: A tinea capitis em idade adulta é um diagnóstico frequentemente subvalorizado, sobretudo em contexto oncológico, onde prevalece a exclusão de malignidade cutânea. O Trichophyton rubrum, habitualmente associado a onicomicoses e tinea corporis, é uma causa rara de tinea capitis em adultos, no entanto, tem se verificado um aumento relativo em idosos, salientando que este agente pode provocar apresentações atípicas do couro cabeludo nesta população. A apresentação clínica pode ser muito variável, desde placas descamativas, zonas de alopecia até formas inflamatórias severas e placas erosivas. As características dermatoscópicas mais comuns na tinea capitis são os cabelos em saca-rolhas, os pontos negros e os cabelos em vírgula.
Conclusão: A tinea capitis em idosos é uma entidade rara e de apresentação frequentemente atípica, o que pode atrasar o diagnóstico e conduzir a terapêuticas inadequadas, com risco de complicações e contágio. O exame micológico precoce é essencial para identificação do agente etiológico e deve ser integrado na avaliação de dermatoses persistentes ou atípicas do couro cabeludo. A colaboração entre a dermatologia e a microbiologia é essencial para um diagnóstico preciso e uma abordagem terapêutica adequada.