1º Autor: Inês Teixeira
Serviço de Patologia Clínica ULS PV/VC
Coautores: Alberta Cruz, Carla Leite, Paula Leite – ULS PV/VC
Resumo
Introdução: As micobactérias são bacilos álcool-ácido resistentes (BAAR) cuja parede celular, rica em ácidos micólicos, lhes confere resistência intrínseca e capacidade de persistência prolongada no hospedeiro. Podem ser classificadas como micobactérias do Mycobacterium tuberculosis complex (MTB) ou micobactérias não tuberculosas (NTM), podendo causar tanto doença pulmonar como extrapulmonar.
A tuberculose (TB) é uma das principais causas de morte por agente infecioso a nível mundial tendo, em 2023, ultrapassado o COVID-19. Em Portugal, continua a ser um problema de saúde pública, no entanto, os programas de vigilância e controlo sofreram um retrocesso durante a pandemia.
Material e Métodos: Foi realizado um estudo observacional retrospetivo de janeiro de 2021 a julho de 2025, recorrendo à consulta dos registos informáticos dos indivíduos com pedido de exame micobacteriológico. Foi feito o tratamento dos dados para avaliar o impacto epidemiológico das micobactérias na população abrangida por esta instituição.
Resultados: Das 3648 amostras analisadas (1378 indivíduos), 82 foram positivas (44 doentes). Verificou-se predomínio de doentes do sexo masculino (31), na faixa etária acima dos 65 anos (18) e de nacionalidade portuguesa (40). A prevalência hospitalar foi de 3,19% e a incidência anual variou entre 4 e 7,33 por 100.000 habitantes (11 casos positivos em 2021, 11 em 2022, 6 em 2023, 8 em 2024 e 8 nos primeiros sete meses de 2025).
Os serviços com mais pedidos de pesquisa de micobactérias foram o internamento de medicina (1953), a pneumologia (691) e o internamento de cirurgia (417), no entanto, a maioria dos resultados positivos registaram-se nos serviços de internamento de cirurgia (30), internamento de medicina (26) e pneumologia (17).
A amostra mais testada foi a expetoração (2740) com 52 resultados positivos, seguida do aspirado brônquico (446) com 16 resultados positivos e do líquido pleural (159) com 3 positivos.
Foram identificados sete casos de MNT que incluíram M. xenopi, M. intracellulare, M. lentiflavum e M. szulgai, evidenciando a importância da determinação genotípica.
Detetaram-se cinco doentes com estirpes resistentes à estreptomicina e/ou isoniazida.
Discussão e Conclusão: O aumento de casos positivos em 2025 (em 7 meses registaram-se tantos como em todo o ano de 2024), pode sugerir um agravamento da incidência ou um aumento da vigilância.
Apesar da preocupação com o impacto da crescente imigração proveniente de zonas endémicas, a mesma representou um número reduzido de casos, o que pode resultar da dificuldade destes doentes em procurar cuidados de saúde. Assim, torna-se fundamental a vigilância contínua destes grupos de risco.
A deteção de resistências à terapêutica é um fator de extrema importância. Dada a complexidade e duração dos regimes terapêuticos da TB, estas resistências podem ter impacto clínico significativo.
Os dados recolhidos neste estudo reforçam a importância da vigilância epidemiológica contínua e do papel central do laboratório no diagnóstico precoce, identificação de resistências e gestão de regimes terapêuticos. A sua análise deve ser tida em conta na implementação de futuras políticas locais de prevenção e controlo das infeções causadas por micobactérias.