1º Autor: Ana Cardeal Dourado
Unidade Local de Saúde do Nordeste
Coautores: Maria Helena Marques; Paulo Pereira – Serviço de Microbiologia, Unidade Local Saúde Santo António
Resumo
Introdução: A sífilis é uma infeção sexualmente transmissível (IST) causada pelo Treponema pallidum, cuja transmissão pode ocorrer por via sexual, vertical ou transfusional. Apesar dos avanços no diagnóstico e tratamento, a incidência global tem aumentado, em particular em populações de risco, como homens que têm sexo com homens (HSH) e indivíduos com infeção pelo Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH). A sífilis pode evoluir por diferentes estadios clínicos (primário, secundário, latente e terciário). O diagnóstico assenta na conjugação da avaliação clínica com testes laboratoriais diretos e serológicos, enquanto o tratamento continua a ter na penicilina a terapêutica de eleição, fundamental para evitar complicações tardias e reduzir a transmissão.
Foi desenvolvido um estudo com o objetivo de avaliar a incidência e caracterizar os casos de sífilis diagnosticados num hospital central, entre 2022 e 2024.
Material e Métodos: Realizou-se um estudo retrospetivo, observacional e descritivo, incluindo todos os doentes submetidos a investigação, do ponto de vista analítico, de sífilis entre janeiro de 2022 e novembro de 2024. Com base nos registos informáticos, foram analisados os resultados de rastreio treponémico, VDRL e TPHA. A gestão e tratamento estatístico dos dados foi efetuada com recurso ao Microsoft Excel e SPSS.
Resultados: Foram incluídos 44 965 doentes, com um total de casos positivos de 2645. Destes, cerca de 150 corresponderam a falsos positivos (5,67%) e 505 estavam sob monitorização terapêutica (19,09%). A incidência por estadio clínico revelou: sífilis primária (14,29%), sífilis latente (59,92%) e sífilis terciária (1,10%). A distribuição por género demonstrou maior incidência no sexo masculino (74,06%), particularmente entre os 30-40 anos. Temporalmente, o ano de 2022 apresentou a maior taxa de incidência (49,45%).
Discussão: Por um lado, a elevada proporção de sífilis latente confirma o desafio diagnóstico e reforça a importância do rastreio precoce em populações de risco, nomeadamente HSH e doentes com VIH. A análise demonstrou diferenças estatisticamente significativas entre a sífilis ocular e a cardiovascular, bem como entre a sífilis primária e a sífilis latente tardia, com maior incidência da sífilis ocular e da sífilis latente tardia, respetivamente. Por outro lado, a monitorização terapêutica revelou uma percentagem relevante de casos, refletindo a necessidade de seguimento laboratorial adequado. A presença de falsos positivos evidenciou limitações inerentes à interpretação isolada da serologia, exigindo uma integração clínica e epidemiológica.
Conclusão: Entre 2022 e 2024, a sífilis apresentou uma incidência significativa no hospital central em estudo, sobretudo no sexo masculino, entre os 30-40 anos. A fase latente registou uma maior incidência, reforçando a importância do rastreio sistemático e do acompanhamento laboratorial. Estes resultados sublinham a necessidade de estratégias de saúde pública direcionadas, visando o diagnóstico precoce, a prevenção da transmissão e a redução de complicações associadas.