1º Autor: Miguel de Miguel
ULS Amadora-Sintra
Coautores: Elzara Aliyeva, Sandra Schäfer, Isabel Monge, Clara Portugal – ULS Amadora-Sintra
Resumo
Introdução: Giardia duodenalis é um microrganismo eucariota flagelado amplamente conhecido enquanto o mais prevalente protozoário intestinal patogénico em humanos. Tem uma prevalência estimada em 2-7% em países industrializados, podendo atingir 40% em países em desenvolvimento.
Além dos factores epidemiológicos, têm sido considerados factores de risco para o desenvolvimento de doença clínica a co-infecção com Helicobacter pylori, toma de inibidores da bomba de protões e outros factores dependentes do hospedeiro, como factores associados à resposta imunológica.
Recentemente, a interacção entre a microbiota intestinal e a infecção por protozoários tem sido objecto de vários estudos, nomeadamente no estabelecimento de relações entre casos de giardíase clínica e disbiose intestinal.
Caso Clínico:
Apresentamos o caso de um doente de 62 anos com história de exposição repetida a antimicrobianos de largo espectro por pielonefrites de repetição no contexto de doença poliquística renal. Recorreu ao SU do nosso hospital por dor abdominal e vómitos, tendo sido admitida pielonefrite aguda (sem leucocitose, PCR 26mg/dL, urina 2 com leucocitúria e nitritúria) e iniciada terapêutica com piperacilina/tazobactam. Ao 11º dia de internamento, foi objetivada diarreia esverdeada, tendo sido realizado exame parasitológico e identificados muitos quistos e trofozoítos identificados como Giardia duodenalis. Procede-se a tratamento com metronidazol 250mg 3id durante 7 dias, com melhoria das queixas. Ao 27º dia de internamento, recorrência da diarreia, com novas pesquisas de patógenios que se revelaram negativas, tendo sido admitida disbiose intestinal e realizado tratamento com probióticos, com resolução clínica e alta ao 33º dia.
Discussão: Se a observação de quistos de Giardia nas fezes é um achado relativamente comum, é amplamente aceite (e explicado pelo seu do ciclo de vida) que a observação de trofozoítos está quase reservada às amostras de aspirado duodenal, quando observadas logo após a colheita. Consequentemente, a observação de muitos trofozoítos deste protozoário numa amostra de fezes observada em contexto de rotina e sem nenhum cuidado excepcional levou-nos a considerar as suas causas. No caso apresentado, consideramos que o factor primordial (além de uma provável infecção subclínica crónica por Giardia), terá sido a disbiose causada pela exposição a antimicrobianos, oferecendo aos organismos protozoários uma tal vantagem competitiva que foi possível observá-los facilmente na sua forma vegetativa, habitualmente oculta. Teria havido benefício na toma de probiótico após a antibioterapia? Deveria a identificação de Giardia motivar a decisão de iniciar probiótico?
Conclusão: Uma oportunidade de nos relembrar que o tubo digestivo é um ecossistema sensível e complexo, em que tanto os achados diagnósticos como as intervenções terapêuticas, nomeadamente relativamente aos antimicrobianos, devem ser conciliados à luz de uma ecologia própria. Esperamos contribuir para o esclarecimento da relação entre a disbiose e a infecção por protozoários, não só em termos ecológicos ou teóricos, mas com eventual relevância futura no reconhecimento da causalidade, do risco patogénico e de possibilidades de intervenção profilática e terapêutica.