1º Autor: Hugo Sousa
Serviço de Patologia Clínica, ULS EDV
Coautores: Ana Aguiar, Rosa Soares, Amélia Afonso, Ana João Barbosa, Mariana Pinto Silva – Serviço de Patologia Clínica, ULS EDV
Resumo
Introdução: As infeções respiratórias graves em doentes críticos constituem um desafio clínico e microbiológico, exigindo diagnóstico rápido e preciso para orientar a terapêutica antimicrobiana. O recurso a novos métodos de diagnóstico molecular permite a deteção simultânea de múltiplos agentes etiológicos, proporcionando maior sensibilidade e redução do tempo de resposta quando comparado com os métodos culturais convencionais.
Material e Métodos: Estudo de coorte retrospetivo, incluindo amostras colhidas entre janeiro de 2023 e julho de 2025. Foram incluídas amostras respiratórias (lavado broncoalveolar e aspirado traqueal) provenientes de doentes com infeção respiratória grave, maioritariamente internados na unidade de cuidados intensivos. Todas as amostras foram submetidas, em paralelo, ao teste molecular FilmArray Pneumonia Panel (BioFire®) e a exame cultural convencional. Os dados demográficos e microbiológicos foram analisados com o software IBM SPSS Statistics v30.0.
Resultados: Foram incluidas amostras de 53 doentes (idade média 55 anos; intervalo 20–82). O painel molecular FilmArray Pneumonia Panel (BioFire®) foi positivo em 35 casos (66,0%): 5 casos (14,3%) correspondiam a positivos exclusivamente para vírus respiratórios; 17 casos (48.6%) foram confirmados por crescimento em cultura, com concordância total (100%) entre os agentes identificados por ambos os métodos; e em 13 casos (37,1%), os resultados foram considerados não valorizáveis após confirmação de outro foco infeccioso ou causa alternativa para o quadro clínico, interpretando-se os microrganismos detetados como colonização. Entre os microrganismos implicados em infeção respiratória, a maioria pertencia à família Enterobacterales (64,7%), destacando-se Klebsiella aerogenes e Escherichia coli como os agentes mais prevalentes. Identificaram-se ainda Staphylococcus aureus, Haemophilus influenzae e Aspergillus fumigatus. Das amostras com painel negativo n=18 (34.0%), 3 não evidenciaram crescimento em cultura, enquanto nas restantes 15 os microrganismos isolados foram considerados sem relevância clínica para o quadro respiratório.
Discussão: A taxa de positividade de 66% evidencia o potencial dos métodos moleculares rápidos para o diagnóstico de infeções respiratórias em doentes críticos, permitindo uma resposta célere com impacto direto na decisão terapêutica precoce e na gestão de antimicrobianos. No entanto, a interpretação destes resultados deve ser sempre integrada com a cultura e o contexto clínico, uma vez que a deteção molecular pode identificar microrganismos com significado clínico limitado, sob pena de sobretratamento ou uso inapropriado de antibióticos. Os resultados negativos também se mostraram deveras importantes, uma vez que permitiram excluir o foco respiratório e muitas vezes suspender ou não iniciar antibioterapia dirigida.
Conclusão: O painel FilmArray Pneumonia Panel revelou-se útil na caracterização de infeções respiratórias graves, reforçando a importância da integração entre métodos moleculares rápidos e exames culturais convencionais como estratégia complementar no diagnóstico microbiológico. Os métodos moleculares rápidos acrescentam verdadeiro valor diagnóstico apenas quando interpretados de forma integrada e contextualizada; uma leitura meramente técnica, dissociada do quadro clínico e dos resultados culturais, pode conduzir a interpretações equívocas e comprometer a utilidade clínica do resultado. O médico de Patologia Clínica desempenha um papel determinante nesta correlação entre os achados laboratoriais e o contexto clínico, essencial para otimizar o diagnóstico e a abordagem terapêutica destes doentes.