DOENÇA INVASIVA POR HAEMOPHILUS INFLUENZAE SEROTIPO BEM CRIANÇA VACINADA: A IMPORTÂNCIA DO DIAGNÓSTICO PRECOCE

1º Autor: Joana Morais

ULS da Cova da Beira

Coautores: Bruno Esteves, Paula Gouveia, Arminda Jorge, Sofia Almeida, Patricia Amantegui, ULS da Cova da Beira

Introdução: Haemophilus influenzae (Hi) é um cocobacilo Gram negativo (CBGN) responsável por infeções potencialmente graves, como pneumonia, meningite e sépsis, especialmente em crianças não vacinadas ou com comorbilidades. Entre os vários serotipos de Hi (a-f), o serotipo b (Hib) é o mais frequentemente associado a doenças invasivas graves. Embora a vacinação tenha reduzido drasticamente a incidência destas infeções, estas continuam a ocorrer em populações de risco. Reportamos um caso de uma criança com doença invasiva por Hib, sublinhando a importância do diagnóstico precoce para orientar o tratamento adequado e minimizar a morbimortalidade mesmo em indivíduos vacinados.

Caso Clínico:

Menina de 12 anos, filha de pais com coeficiente de consanguinidade 1/8, portadora de uma síndrome congénita polimalformativa, foi admitida no Serviço de Urgência com queixas de dor abdominal, dejeções diarreicas, vómitos, tosse e febre com um dia de evolução. Destaca-se o facto de apresentar o Programa Nacional de Vacinação atualizado. À admissão, apresentava proteína C reativa (PCR) de 1,96 mg/dL, leucopenia (3,6×103/uL), hipocalemia e hipoxia. A radiografia ao tórax revelou um infiltrado na base pulmonar esquerda. Assumiu-se o diagnóstico de pneumonia bacteriana e a doente foi hospitalizada. Neste contexto, foram colhidas hemoculturas e iniciada antibioterapia empírica com ceftriaxona e clindamicina. Treze horas após a admissão verificou-se um agravamento do estado geral, tendo sido realizado um controlo analítico que revelou leucopenia (1,0×103/uL), PCR 12,85 mg/dL e procalcitonina 26,31 ng/mL. Por instalação súbita de choque séptico, a doente foi transferida para a Unidade de Cuidados Intensivos (UCI) do hospital de referência. A hemocultura colhida à admissão no hospital de origem positivou após catorze horas de incubação. A coloração de Gram relevou a presença de CBGN pleomórficos, compatíveis com Hi avançando-se para a realização de uma técnica de Polymerase Chain Reaction em microarray que permitiu confirmar o agente etiológico. Tratando-se de um resultado crítico, os clínicos foram notificados, optado-se por descalar a antibioterapia apenas para ceftriaxona até à realização do antibiograma que confirmou a sensibilidade à terapêutica empírica instituída. A doente permaneceu internada durante 16 dias, 14 dos quais em UCI, apresentando uma evolução clínica favorável. A tipagem realizada no laboratório de referência identificou Hib.

Discussão: A doença invasiva por Hib é uma doença de notificação obrigatória rara em idade pediátrica, tendo-se verificado um decréscimo dos casos após a introdução da vacinação. O caso descrito é de uma criança com vacinação completa para Hib que contraiu a doença na qual se verificou uma resposta terapêutica após a instituição do tratamento empírico. Os dados laboratoriais preliminares foram decisivos para suportar a manutenção do tratamento ao permitirem identificar precocemente um agente etiológico que não apresenta resistência descrita ao antibiótico prescrito.

Conclusão: A doença invasiva por Hi, deve ser considerada mesmo em pacientes vacinados, especialmente quando existem comorbidades. Embora as tecnologias de biologia molecular tenham evoluído, os métodos convencionais de diagnóstico bacteriológico, como a coloração de Gram, ainda desempenham um papel importante ao fornecer pistas diagnósticas rápidas, essenciais para a validação do regime de tratamento empírico, com um impacto direto na sobrevida dos pacientes.