1º Autor: Patrícia Sousa
Unidade Local de Saúde Santo António
Coautores: Jonatas Garcez*, Gizela Pontes*, Hugo Cruz*, Ana Paula Castro*; *Unidade Local de Saúde Santo António
Introdução: O citomegalovírus (CMV) pode causar complicações graves, tais como colite, particularmente em indivíduos imunocomprometidos. O diagnóstico da colite por CMV inclui a combinação de achados clínicos (geralmente inespecíficos, tais como febre, dor abdominal e diarreia), endoscópicos e anatomopatológicos. Os testes de amplificação de ácidos nucleicos (TAAN) têm vindo a ser realizados a partir de amostras de biopsia intestinal, mas devem ser interpretados com cautela, pois podem indicar apenas eliminação viral passiva. Este estudo visa compreender a utilidade clínica dos TAAN na colite por CMV. Métodos: Estudo observacional retrospetivo dos indivíduos com TAAN positivos para CMV em amostras de biopsia intestinal num hospital universitário, entre setembro de 2018 e setembro de 2024. Os dados foram extraídos através do sistema informático laboratorial e do processo clínico eletrónico, designadamente demográficos, clínicos (incluindo fatores de risco e apresentação clínica), do estudo endoscópico, anatomopatológico, molecular e serológico, e da evolução clínica após instituição de terapêutica antiviral. Resultados: Foram incluídos 28 doentes com TAAN positivos para CMV, de idade mediana de 27 anos (IQR 13-51.5), dos quais 12 em idade pediátrica. As apresentações clínicas mais comuns foram diarreia e dor abdominal em 89,3% (n=25) e 57,1% (n=16) dos casos, respetivamente. 78,6% (n=22) dos doentes apresentavam pelo menos um fator de risco, sendo a imunossupressão iatrogénica o mais prevalente em 63,6% (n=14). Os achados endoscópicos mais frequentes foram úlceras e erosões da mucosa em 76,9% (n=20) e 57,7% (n=15) dos casos, respetivamente. O diagnóstico foi confirmado por estudo anatomopatológico em 17,9% (n=5) dos doentes, os quais apresentavam valores de IgG-anti CMV tendencialmente superiores, nomeadamente 1017 UI/mL (IQR 208-3918) vs. 417 UI/mL (IQR 164-769). 67,9% (n=19) dos doentes iniciaram terapêutica antivírica dirigida, todos eles antes da disponibilização do resultado do estudo anatomopatológico. A presença de pelo menos um fator de risco associou-se, de forma estatisticamente significativa, à valorização clínica do resultado dos TAAN (p=0,029), expressa pela instituição terapêutica nestes doentes.
Discussão: A apresentação clínica e os achados endoscópicos dos doentes com TAAN positivos foram concordantes com o que está descrito na literatura. Estes resultados foram clinicamente valorizados e conduziram a uma instituição terapêutica, sobretudo na presença de fatores de risco, mesmo antes da disponibilização do resultado do estudo anatomopatológico. Em apenas um dos casos, o resultado anatomopatológico negativo foi determinante para a suspensão da terapêutica antivírica dirigida. Além disso, tanto o resultado anatomopatológico, como a instituição de terapêutica, não foram fatores diferenciadores nos resultados clínicos.
Conclusão: O diagnóstico de colite por CMV permanece um desafio clínico e laboratorial. As metodologias disponíveis apresentam uma grande variabilidade de resultados. Neste estudo, os resultados positivos de TAAN apenas foram concordantes com os achados anatomopatológicos em cerca de 18% dos casos. São necessários mais dados para melhor compreender a real utilidade clínica dos TAAN neste contexto clínico.