LEPTOSPIROSE

1º Autor: Ana Isabel Bento Ferreira Leite

Unidade Local de Saúde Póvoa Varzim/Vila Conde

Coautores: Mariana Maia, Raquel Santos, Nádia Martins, João Caldas – Unidade Local de Saúde Póvoa Varzim/Vila Conde

Resumo

Introdução: A Leptospirose é uma zoonose causada pela bactéria leptospira. A exposição ocupacional é factor risco. É uma doença de declaração obrigatória. A clínica da doença varia desde infeção subclínica até disfunção multiorgânica grave com elevada mortalidade.

Caso Clínico

Homem 56 anos, agricultor. Admitido no Serviço Urgência por cefaleia holocraneana, anorexia, astenia, náuseas, mialgias, febre. Ao exame físico, hipotenso, taquicardico, febril, rash cutaneo maculo-papular eritematoso. Por suspeita de zoonose iniciou doxiciclina. Virus influenza, sincicial respiratório, SARS-CoV-2 negativos. Tomografia computadorizada (TAC) tórax-abdómen-pélvica, angio e veno-TAC cerebral, punção lombar sem alterações. Evoluiu com febre refratária, pancitopenia, citocolestase hepática, iniciou ceftriaxone. Auto-imunidade, serologias IgM (citomegalovírus, vírus epstein-Barr, herpes vírus, varicela, enterovírus, rickettsia, hepatites, brucela, salmonela, toxoplasma gondii, parvovírus, sífilis, HIV), hemoculturas negativas. Ressonância abdominal revelou hepatoesplenomegalia. Ecocardiograma excluiu endocardite. A polymerase chain reaction (PCR) Leptospira sangue positiva confirmou diagnóstico Leptospirose. Após antibioterapia teve evolução favorável. Serologias Leptospirose (kit JusChek®) permaneceram negativas na admissão, 3º dia, 40º dia, 5 meses.

Discussão: No diagnóstico de Leptospirose, as serologias negativas podem ser explicadas por: o momento da recolha amostra em relação à fase da infeção (antes da seroconversão, os anticorpos estão ausentes na fase aguda doença, não detectáveis antes da segunda semana após o início dos sintomas), imunossupressão, antibioterapia precoce pode inibir produção anticorpos, limitações do kit comercial, não deteção do serovar causador da infeção devido a diversidade de serotipos. Neste caso, foi excluída imunossupressão. O kit JusChek® utilizado foi o ensaio imunocromatográfico para deteção qualitativa anticorpos IgM/IgG contra Leptospira interrogans (sensibilidade 93,8%, especificidade 98,7%). As limitações do JusChek® incluem: erro execução/interpretação, ausência correlação linear com título anticorpos amostra (teste qualitativo), necessidade hematócrito 25-65%, possibilidade de falsos negativos. Serologia negativa indica ausência de anticorpos detectáveis mas não exclui infeção por leptospira se a amostra foi colhida precocemente ou se os anticorpos estão abaixo do limite de deteção. Leptospira interrogans não é a única espécie patogénica. A espécie infectante neste caso pode ter sido diferente e não detectável na serologia. A Leptospira interrogans é a mais relevante como causa de doença. Estão descritos 25 serogrupos e mais de 300 serovares. As serologias que não detectam todas as variedades serotipos Leptospira podem apresentar resultados negativos mesmo na presença de infeção. Neste caso, a serologia pode não ter detectado o serotipo infectante devido a discordância entre o serotipo infectante e o serotipo pesquisado. Neste caso, a deteção Leptospira foi realizada por PCR sangue (sensibilidade 93%, especificidade 98%) utilizando como alvo o gene LipL32 que codifica lipoproteína da membrana externa presente exclusivamente em serovares patogénicos da Leptospira.

Conclusão: A escolha dos exames laboratoriais deve considerar o tempo de evolução da doença e a disponibilidade técnica. A vantagem do uso da PCR Leptospira no sangue relativamente à serologia é a capacidade de obter o diagnóstico rápido na fase aguda da doença (alta sensibilidade e especificidade) previamente à deteção de anticorpos (serologias negativas).