RESISTÊNCIA DE ENTEROCOCCUS FAECALIS AO LINEZOLID: UM ALERTA PARA O USO RACIONAL DE ANTIMICROBIANOS

1º Autor: Alice Maria Andrade Malafaia Novais

Serviço de Microbiologia da ULS Santo António

Coautores: Jorge Meneses; Ana Paula Castro, Serviço de Microbiologia da ULS Santo António

Resumo

Introdução: A resistência bacteriana a antimicrobianos de última linha representa um desafio crescente na prática clínica. Relatos de resistência ao Linezolid ainda são incomuns, mas tem-se verificado um aumento dos mesmos, nos últimos anos, especialmente em contextos de exposição prolongada. A identificação e notificação dessas resistências é de extrema importância para a vigilância epidemiológica, em prol do controlo e prevenção de infeções por microrganismos resistentes, para além de ser imperativo para um tratamento seguro e eficaz dos doentes.

Caso Clínico

Um doente do sexo masculino, de 64 anos, deu entrada no serviço de urgência, por dor abdominal e febre com 3 dias de evolução. Foi diagnosticado com uma fístula cólica com coleção abcedada subfrénica esquerda associada. Como antecedente, há a destacar um abcesso subfrénico diagnosticado 2 anos antes, com múltiplas recidivas, para o qual realizou vários ciclos de antibioterapia com Linezolid, totalizando 57 dias de exposição. Neste internamento, iniciou terapêutica empírica com Piperacilina/ Tazobactam e Linezolid. Após drenagem do abcesso subfrénico, foi enviado pus para exame bacteriológico, onde se isolou Enterococcus faecalis, com resistência isolada ao Linezolid, sendo sensível aos restantes antimicrobianos.

Discussão: O Enterococcus faecalis é um coco gram-positivo comensal do trato gastrointestinal, sendo frequentemente isolado em infeções dos tecidos moles ou do trato urinário. O Linezolid é um antibiótico da classe das oxazolidinonas, bacteriostático, utilizado contra microrganismos gram-positivos multirresistentes, incluindo Enterococcus spp. resistente à Vancomicina. Fatores de risco para resistência a Linezolid incluem exposição repetida e prolongada, bem como, a transmissão cruzada de estirpes resistentes em meio hospitalar. Em casos de infeções intra-abdominais por E. faecalis, a primeira linha de tratamento é Ampicilina, uma vez que apresenta uma menor toxicidade ou, no caso de infeções graves, deve ser considerada a associação com um aminoglicosídeo. Como alternativa, em caso de resistência aos fármacos de primeira linha, deverá ser utilizada a Vancomicina e, apenas em caso de resistência, se deve considerar o Linezolid.

Conclusão: Este caso pretende realçar a importância da utilização racional de antimicrobianos, utilizando fármacos de primeira, ou segunda linha, empiricamente, reservando os fármacos de última linha para casos excecionais. A sua utilização repetida e prolongada pode levar ao surgimento de resistências, como a observada neste caso. Por último, há que realçar que a Direção-Geral da Saúde e o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge consideram o E. faecalis resistente ao Linezolid na categoria de microrganismo “alerta”, devendo, por isso, ser reportado o seu isolamento.