1º Autor: Paulo Manuel Costa da Silva
Trofa Saúde, Patologia Clínica
Coautores: Márcia Pimenta – Trofa Saúde Patologia Clínica; Mónica Teixeira- Trofa Saúde Patologia Clínica; Luís Marques da Silva- Serviço de Microbiologia, ULS Santo António; João Oliveira Neves- Serviço de Patologia Clínica, ULS Braga; Hugo Cruz- Serviço de Microbiologia, ULS Santo António
Resumo
Introdução: A espermocultura é frequentemente solicitada na avaliação de infeções do trato geniturinário masculino e infertilidade, bem como no rastreio prévio à realização de técnicas de reprodução assistida. O objetivo deste trabalho foi apresentar uma série de casos e caracterizar o perfil microbiológico das espécies bacterianas isoladas em amostras de sémen.
Material e Métodos: Estudo observacional, retrospetivo e unicêntrico, ao longo de 4 anos (janeiro de 2021 a dezembro de 2024), incluindo a revisão de todas as amostras de sémen submetidas a estudo bacteriológico durante o período em análise. As espermoculturas foram realizadas em gelose de chocolate (a 35±2°C, em atmosfera de capnofilia, com leitura às 18-24 horas e às 48 horas de incubação). A identificação bacteriana foi efetuada através de métodos bioquímicos ou proteómicos (MALDI-TOF MS).
Resultados: No total, foram estudadas 604 espermoculturas positivas, provenientes de indivíduos com uma média de idade de 42 anos, sendo que 85,1% (n=514) destas foram monomicrobianas e 14,9% (n=90) polimicrobianas. As espermoculturas monomicrobianas apresentaram crescimento de cocos Gram positivo (CGP) em 62,3% (n=320), de bacilos Gram negativo (BGN) em 31,9% (n=164) e de cocobacilos Gram negativo (CBGN) em 5,6% (n=29). Os isolamentos mais frequentes foram espécies de Enterococcus em 89,7% (n=287) dos CGP, a maioria das quais Enterococcus faecalis em 96,5% (n=277), espécies de Enterobacterales em 96,7% (n=159) dos BGN, a maioria das quais Escherichia coli em 52,2% (n=83), e diferentes espécies de Haemophilus em 100% (n=29) dos CBGN. As espermoculturas polimicrobianas demonstraram crescimento de CGP em 44,0% (n=81), de BGN em 53,3% (n=98) e de CBGN em 2,2% (n=4). Os isolamentos mais frequentes foram espécies de Enterococcus em 96,3% (n=78) dos CGP, a maioria das quais E. faecalis em 96,2% (n=75), espécies de Enterobacterales em 82,7% (n=81) dos BGN, a maioria das quais E. coli em 53,1% (n=43), e diferentes espécies de Haemophilus em 100% (n=4) dos CBGN. As associações de CGP com BGN estiveram presentes em 80% (n=72) e de diferentes espécies de BGN em 11,1% (n=10).
Discussão e Conclusão: Os resultados demonstram uma predominância de E. faecalis e E. coli nas espermoculturas positivas. Contudo, na prática clínica, a interpretação cuidadosa destes resultados é fundamental, sendo recomendável a repetição da colheita e/ou a correlação com dados clínicos para distinguir entre contaminação e infeção. Na realidade, a presença destes microrganismos em amostras de sémen pode refletir apenas uma contaminação proveniente do trato urinário inferior ou da região periuretral e não uma infeção do trato geniturinário masculino. Em homens assintomáticos, sobretudo na ausência de correlação com leucocitose seminal, os resultados sugerem provavelmente contaminação durante a colheita da amostra. Por outro lado, em homens sintomáticos e/ou na presença de correlação com leucocitose seminal, os resultados podem apontar para uma possível infeção do trato geniturinário masculino.