ESTUDO DA LISTERIOSE EM HOSPITAL CENTRAL: ÚLTIMOS 10 ANOS

1º Autor: Afonso Tété Machado

Serviço de Microbiologia, ULS Santo António

Coautores: Paula Martins da Costa; Ana Paula Castro – Serviço de Microbiologia, ULS Santo António

Resumo

Introdução: Listeria monocytogenes é um bacilo Gram-positivo, anaeróbio facultativo, móvel, não esporulado, beta-hemolítico e intracelular facultativo. É uma bactéria com presença ubiquitária no meio ambiente. Consegue sobreviver em condições desfavoráveis como temperaturas baixas e pH ácido.
A infeção está associada sobretudo com a ingestão de alimentos contaminados, ocorrendo também infeção fetal ou neonatal. Entre os alimentos com maior risco de causar listeriose estão os produtos derivados de leite não pasteurizado e enchidos.
Na Europa, apresenta uma incidência de 0,52 casos por 100.000 habitantes, taxa que sobe para os 2,1 casos na população com mais de 64 anos de idade. O número de casos reportados em cada ano tem vindo a aumentar.
É o agente patogénico transmitido por alimentos associado a uma maior taxa de letalidade no hemisfério ocidental.

Material e Métodos: Este trabalho corresponde a um estudo casuístico retrospectivo e descritivo dos casos de listerioses nos últimos 10 anos. Foram seleccionadas as amostras biológicas positivas para Listeria monocytogenes e identificados fatores de risco (idade superior a 60 anos, gravidez, doença oncológica, Diabetes mellitus, transplante de órgãos, terapia glucocorticoide, SIDA, doença hepática crónica e doença renal), suscetibilidade a antimicrobianos e mortalidade ao fim de 3 meses.

Resultados: Foram encontradas 64 amostras, de 53 doentes, com isolamento em cultura de Listeria monocytogenes. A média etária dos doentes foi de 70,2 anos, sendo a maioria (39) do sexo masculino. Das 64 amostras, destaca-se que foram observados 38 isolamentos a partir de colheitas de sangue, 15 isolamentos em amostras de líquido cefalorraquidiano e 3 de colheita de abcesso cerebral. Foram também registados 3 isolamentos em tecido de 3 necrópsias fetais.
Observou-se também a presença de, pelo menos, um fator de risco em 98% dos casos, sendo que 62% dos doentes tinham 2 ou mais fatores de risco. Uma idade superior a 60 anos foi o mais prevalente (85% dos doentes), seguido do contexto de doença neoplásica (37,7%).
Em relação à suscetibilidade aos antibióticos, observou-se que das 54 amostras estudadas todas apresentaram suscetibilidade à ampicilina e apenas um isolado apresentou resistência ao trimetropim/sulfametoxazol.
A mortalidade dos casos estudados ao fim de 3 meses foi de 31,9%.

Discussão: A maior parte dos casos estudados de listeriose apresentam bacteremia, sendo a neurolisteriose a segunda apresentação clínica mais frequente, resultados que são consistentes com os descritos na literatura. Verificou-se também que não houve registo de nenhuma grávida infectada com Listeria monocytogenes, apesar do isolamento em 3 necrópsias de diferentes fetos.
De salientar que não se verificou qualquer resistência adquirida à ampicilina (antibiótico de primeira linha no tratamento de listeriose invasiva).

Conclusão: A mortalidade por listeriose continua a ser considerável, não se verificando uma diminuição do número de infeções no período estudado.
O envelhecimento da população (principal fator de risco) e a condição de imunossupressão associam-se a um aumento de listerioses invasivas.
Não houve registo de infeções em idade pediátrica.
É importante estudar o contexto clínico e epidemiológico das infeções, nomeadamente em casos de surtos de toxinfeção alimentar.